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"Sou versão evoluída da Iolanda. É um disco de afirmação enquanto mulher"

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"Sou versão evoluída da Iolanda. É um disco de afirmação enquanto mulher" (Foto: Reprodução)

Iolanda acaba de lançar o álbum de estreia, "Quebranto", que chega depois de dois EP - "Cura" e "Olha P'ra Baixo" - e após ter representado Portugal no Festival Eurovisão da Canção em 2024, na Suécia, com o tema "Grito".

 

Este novo trabalho ficou disponível na quinta-feira, dia 8 de outubro, e conta com 13 faixas: "Quebranto"; "Entrai"; "Responso"; "Noite Inteira"; "Dei-te a Minha Mão"; "Alucinada"; "(Des)gosto"; "Tão Bonita"; "Não Volto Mais"; "Maldição (Fado Cravo)"; "Olha P’ra Ela"; "Fogo Não Apaga"; e "Aurora".

O disco vai ser apresentado no dia 7 de dezembro no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, mas antes a cantora conversou com o Notícias ao Minuto precisamente sobre esta novidade profissional, que "marca a diferença entre a Iolanda sonhadora e a Iolanda que vive o sonho".

Ao longo da entrevista, a artista abordou vários temas, destacando a sua máxima de "querer sempre que as pessoas se sintam livres para serem exatamente aquilo que são", tendo também recuado às suas raízes. 

Logo de início, Iolanda explicou o conceito do disco e partilhou que a palavra "Quebranto" sempre existiu na sua vida, no seu seio familiar, e por ser "natural de uma zona mais pequenina" - no centro do país, onde existe uma forte presença destes rituais. "É uma coisa de que sempre ouvi falar." 

A ideia de fazer este disco já tinha pairado na sua cabeça antes, até "um bocadinho pós-Eurovisão", mas na altura optou por lançar um trabalho mais curto, o EP "Olha P'ra Baixo", "porque queria dar continuidade e sentiu que este disco seria um trabalho que precisava do seu tempo".

Há cerca de um ano e meio chegou, então, o "conceito e começaram a explorar a palavra, a estudá-la", isto porque, diz, "o que conhecia era muito corriqueiro, muito da sua aldeia, coisas simples, do ritual em si, de tirar o quebranto".

"Mas isto tem muito mais que se lhe diga do que só o ritual em si. Há várias histórias e mezinhas/rezas, depois acabas por entrar num sítio mágico. Comecei a ficar viciada e isto foi quase uma tese, como se tivesse tirado uma licenciatura em quebranto [risos]."

É sempre tendo em conta os dois lados da moeda, porque tem coisas boas e más. O disco usa o quebranto nesta perspetiva de análise do ser humano

O álbum começa precisamente com a introdução intitulada "Quebranto", que fala sobre espantar o mau-olhado. Em entrevistas anteriores partilhou que este disco também chega depois da exposição 'indesejada', sobretudo pós-Eurovisão… 

É sobre isso também, mas é um disco pessoal, biográfico, porque a verdade é que escrevo sempre nessa perspetiva, não tenho muita facilidade em escrever histórias de outros. É uma coisa que preciso de trabalhar ainda.

Quando começo a trabalhar este conceito vêm-me várias ideias à cabeça, mas aquela ideia de que, obviamente, quando tens uma exposição maior - seja ela porque és artista, cantor, ator, ou se pensares nas aldeias, as pessoas conhecem-se todas e quando, de repente, fazes uma coisa um bocadinho maior, ou és um professor há não sei quantos anos na escola, ou és padeiro - atrai sempre esta coisa do bom olhado ou do mau olhado, do mal dizer e do bem dizer. É interessante pensar nisso, porque a verdade é que todos nós julgamos, de certa forma, uns e outros.

Este disco é uma abordagem a essa exposição que vem, obviamente, pós-Eurovisão, e de trabalhar numa perspetiva do foro público. No entanto, é sempre tendo em conta os dois lados da moeda, porque tem coisas boas e más. O disco usa o quebranto nesta perspetiva de análise do ser humano. Como é que nós somos, como é que agimos. Eu, inclusive, tenho canções no disco em que menciono que eu também falho.

O ser humano tanto falha como é falhado. Nem fala muito das pessoas que me falharam, por exemplo, fala muito sobre a expectativa que criei sobre essas pessoas e como é que deveria ter agido de outra forma. 

 Foi um trabalho de retalhos, que para mim foi a metáfora perfeita para me proteger deste mau-olhado e poder tirar este quebranto de mim (...) Este disco reflete exatamente isso, esse trabalho em comunidade, feito com muito amor e afinco, muito brio

Mas como é que, na prática, consegue proteger-se desse lado? Ou não se consegue fugir desse lado da exposição?

A forma que arranjei para me proteger foi levar as coisas numa perspetiva muito leve. Uma coisa é aquilo que os outros dizem e outra coisa é aquilo que eu sinto, aquilo que tenho em casa...

Tenho tentado criar um espaço sagrado na minha casa, nos meus amigos, nas pessoas que me rodeiam, porque são pessoas que me querem bem e este disco também surge nessa perspetiva. Porque trabalhei tanto com membros da minha equipa que já se tornaram amigos, como com amigos que se tornaram membros da minha equipa.

Foi um trabalho muito de comunidade. Trabalhamos em alguns [sítios mais pequenos], por exemplo, Caxarias, que é uma vila no município de Ourém, trabalhei perto de minha casa muitas vezes – menos do que queria porque entretanto o trabalho acabou por surgir muito mais em Lisboa.

Foi um trabalho de retalhos, que para mim foi a metáfora perfeita para me proteger deste mau-olhado e poder tirar este quebranto de mim, que é, claramente, juntar-me a pessoas que me amam e rodear-me dessa partilha, desse amor que vem por bem. Tentares combater essa má sorte, de alguma forma, com pessoas que te querem bem, com amor e muita amizade.

Este disco reflete exatamente isso, esse trabalho em comunidade, feito com muito amor e afinco, muito brio, porque queríamos mesmo passar esta ideia de família grande que se sente na aldeia, esta coisa de partilha. Quase aquela sensação de que vais buscar um pacote de arroz e é fiado porque não trouxeste moedas e vais lá pagar no dia a seguir. É um bocado esta energia que queria transmitir.

É engraçado que em Lisboa já vou sentindo um bocadinho isso, que estamos todos a caminhar um bocadinho mais para essa coisa de comunidade. Em vez de vivermos uma vida individual e cada um na sua, acho que estamos a caminhar para isso, eu sinto. Devagarinho, porque as pessoas começam a fartar-se do instantâneo. Cada vez mais a malta usa muito a Inteligência Artificial, mas já estamos a ficar fartos, já estamos a entrar numa exaustão e a procurar muito mais o campo, pelo menos eu.

É uma tradição nossa que está cada vez mais perdida, e sinto que é uma forma também de viver o nosso país sem ser sempre com os conceitos clichés do caldo verde, do chouriço e do rancho

A questão das mezinhas e toda essa envolvência está muito presente neste disco. Isto é algo em que acredita mesmo, é uma herança cultural que a acompanha ou interessou-lhe apenas abordar esta parte da nossa cultura?

Venho de uma família que tem as duas vertentes, tanto de um lado mais crente, como um lado mais cético. Sinto-me mais uma estudiosa deste assunto. Suspeito muito, é um assunto que respeito bastante e há uma parte de mim que acredita e a outra que é cética. Mas a verdade é que há um interesse meu, apaixonei-me pelo conceito e pela forma como isto leva a que as pessoas também criem a sua própria fé e as suas próprias crenças.

Isto é bonito porque faz também o país ter este lado especial de uma certa antiguidade que lhe dá esta tradição, que acho que nos caracteriza muito. Sou um misto, estou no limbo entre acreditar e ser cética. Mas acho muito bonito. Uma coisa engraçada nas entrevistas que fui fazendo com pessoas que praticam este ritual é que dizem que se não for algo que te faça bem também não te vai fazer mal.

Adoro aquelas coisas de tomar banho com uma água fervida em alecrim, porque acho que isso limpa, de certa forma, a tua energia. Por muito que seja até só pelo cheirinho, mas a lavanda é uma coisa que acalma imenso. Adoro pôr lavanda debaixo da minha almofada. E é verdade que sinto que aquilo me acalma, porque tem propriedades calmantes. Estas mezinhas estão muito envolvidas com essas coisas da terra, das plantas medicinais… Entrei num mundo em que me apaixonei por completo por esses conceitos e quando dei por mim já estava dentro do disco.

As canções têm todas um quebranto associado. Criei uma espécie de lista de quebrantos associados a cada música. Há músicas que falam do quebranto da inveja, há outras que falam sobre quebranto por mau-olhado. Se pensares demasiado em alguém e se estiveres quase que obcecado por essa pessoa, tu também lhe podes lançar quebranto... Há estas histórias todas e eu amo.

Nós em Portugal temos esta ligação tanto com os celtas como com os árabes, e estas coisas mexem comigo de alguma forma e acho interessante. Há uma magia especial e é uma coisa muito bonita. É uma tradição nossa que está cada vez mais perdida, e sinto que é uma forma também de viver o nosso país sem ser sempre com os conceitos clichés do caldo verde, do chouriço e do rancho... Há mais para além disso.

Fez-me todo o sentido explorar isto enquanto filha da terra que sou, e porque tenho muitas saudades de casa e este tema faz-me lembrar casa

O que é que estas tradições populares portuguesas podem dizer sobre a nossa história que talvez a nossa história 'oficial' não nos diga?

Não tenho assim tanto conhecimento, tanto quanto quero, porque depois só queres saber mais e mais. Não consigo ter tempo para saber tudo, que é uma pena minha, é uma das coisas que mais me dá pânico: o não poderes saber tudo da vida. Quando pesquiso sobre isto sinto que este lado do quebranto é um lado mais tabu, escondido. Claramente está ligado com o paganismo, mas ao mesmo tempo as rezas são todas feitas a santos que são queridos das pessoas.

Usei uma reza, que foi aquela que me foi passada, mas há várias outras completamente diferentes. Mas rezas sempre "ao pai, ao filho e ao espírito santo", que está intimamente ligado com o catolicismo. Há aqui uma dicotomia entre o paganismo, mas elas rezam aos santos. Acho isso engraçado porque é um lado mais escondido, mas é um lado da cultura portuguesa - e não só, porque no Brasil também há muito este lado.

Há também umas coisas que são umas feridas que aparecem no corpo, que são os cobrões, e a minha mãe teve isso e na altura – não sei se foi coincidência ou não – depois de ela ter ido a uma senhora, resultou.

Acho que está ligado à parte mais rural do país. Há pessoas com quem vou falando das grandes metrópoles que dizem que o avô ou a avó lhes tirava o quebranto, e a maior parte desses avós não estão em Lisboa, ou são de sítios mais antigos. Está intimamente ligado também com esta nossa sensação de destino, até de fado. Fez-me todo o sentido explorar isto enquanto filha da terra que sou, e porque tenho muitas saudades de casa e este tema faz-me muito lembrar casa.

Foi um disco que abriu muitas portas do meu interior e daquilo que sou, para também dar a conhecer esse lado às pessoas, esse lado mais pessoal

Quando canta "mãe, reza o responso p'ra ver se eu me encontro", neste álbum conseguiu encontrar-se?

Acho que não. É sempre uma pesquisa, principalmente porque sou muito curiosa, ando sempre a tentar perceber como poder ser melhor. Mas sem dúvida que este disco é uma afirmação para mim. Foi uma pesquisa tão grande que me fez descobrir muitas coisas sobre mim, coisas boas, coisas más, mesmo durante o processo do disco.

Foi um processo muito em catarse. Fui recebendo feedback de como é que agia durante o disco. Houve momentos de partilha muito intensos neste disco, que te levam a criares relações com as pessoas também intensas. Foi uma descoberta pessoal grande. Nesses processos acabas por descobrir como é que ages, se podes agir melhor. Pedi muita desculpa, porque também houve momentos em que os azeites ficaram trocados e tivemos de voltar atrás e começar do zero.

Foi um disco que abriu muitas portas do meu interior e daquilo que sou, para também dar a conhecer esse lado às pessoas, esse lado mais pessoal, uma parte mais íntima, que é o que eu sou e de onde venho.

Há quatro anos trabalhava em revisão de conteúdo para uma plataforma gigante online e, de repente, vivo da música. Há claramente uma mudança muito grande na minha vida e esta exposição atrai estas coisas boas e más

Já partilhou anteriormente que estas canções são as mais pessoais que alguma vez escreveu. Como se sentiu no fim deste álbum? Houve alguma coisa que tenha sido particularmente mais difícil de expor? Houve alguma coisa que só percebeu sobre si depois de escrever este disco?

Acho que não. Na verdade, já tinha conhecimento de tudo o que escrevia. Há uma necessidade de fazer com que este álbum seja a minha cara, que seja exatamente aquilo que sou, sem qualquer tipo de tabu, sem qualquer tipo de exclusão de partes de mim para tentar mascarar uma pessoa que não sou.

O meu objetivo foi deixar tudo em aberto, porque também sou uma pessoa muito honesta, aberta, gosto de ser aberta com os meus assuntos, tenho muito poucos segredos. Às vezes tenho de tentar ter mais alguns porque depois, entretanto, já estou a falar com toda a gente e a marcar café com toda a gente, e de repente já estou a convidar uma pessoa que não conheço para ser madrinha do meu casamento [risos]. Tenho de ter algum autocontrolo nesse aspeto.

É um disco em que quis também abordar os assuntos que são meus, esta coisa de ter sentido alguma pressão depois da Eurovisão, de ter sido um crescimento muito exponencial, mas rápido.

Há quatro anos trabalhava em revisão de conteúdo para uma plataforma gigante online e, de repente, vivo da música. Há claramente uma mudança muito grande na minha vida e esta exposição atrai estas coisas boas e más, e senti que queria expô-las e ser honesta.

É por isso que o disco fala também um pouco da minha sexualidade, da forma como vejo alguns assuntos como a inveja, por exemplo. E depois a forma como ajo sobre esses assuntos e como às vezes julgo sem saber, porque tens medo de ser julgada, então acabas por já estar a julgar. É um disco que aborda assuntos intensos, mas com o objetivo de curar essas feridas.

Tenho percebido cada vez mais que escrevo sempre nessa perspetiva de me curar e dessa catarse, de largares essas vibrações más. Há uma canção do disco que não escrevo, que é o "Tão Bonita", que me foi oferecida pelo meu baixista e fala de uma relação entre duas mulheres na antiguidade - em que as coisas eram proibidas, as pessoas viam as coisas de uma forma diferente. Tudo na vida tem ambos os lados da moeda e isso é o que faz com que isto seja equilibrado – apesar de não vivermos tempos muito equilibrados.

Gostava de quebrar padrões ou que este álbum contribuísse para isso?

Honestamente, o objetivo deste álbum não é esse. É abordar esta temática que para mim é tão importante e que é tão familiar. Não é fazer com que ninguém sinta absolutamente nada específico. Quero que as pessoas ouçam o disco e retirem dele aquilo que lhes fizer mais sentido. Não quero obrigar ninguém a acreditar que o quebranto se pode tirar, que existe. Não quero, de todo, fazer ninguém acreditar em nada que não seja aquilo que a pessoa acredite naturalmente, que as pessoas sintam aquilo que tiverem de sentir.

Não quero pôr palavras da minha boca na boca das outras pessoas. Quero que seja uma coisa que as pessoas aproveitem e ouçam pela música, pela sonoridade, pelas letras, pelo significado que retiram das canções. Se as pessoas se identificarem com elas e eu já ficarei muito feliz. E se isto ajudar, de alguma forma, alguém nos seus processos interiores fico ainda mais feliz e é uma cereja no topo do bolo.

Os meus concertos servem para as pessoas serem exatamente aquilo que são desde que a liberdade delas não impeça a liberdade do outro, que não magoe ninguém

Quando falo em quebrar padrões não é apenas na parte das mezinhas, é no geral. Há pouco falou, por exemplo, sobre a sexualidade…

Quando falas dos assuntos, tudo o que somos, tudo o que mostramos no nosso dia a dia, acaba por ser uma reflexão daquilo que és. E há sempre pessoas que se vão identificar. No disco tenho as canções que são talvez de tópicos mais difíceis, de tabu para algumas pessoas. Claro que essas canções não as escrevo numa perspetiva de tocar na ferida. Escrevo-as porque elas são eu, são uma parte de mim, é uma manifestação do meu eu mais honesto.

Vai haver sempre esta ideia de que há uma necessidade de quebrar padrões. Só que na verdade eu vivo a minha vida tão tranquilamente e no meu círculo isso nunca é uma questão, que também não o faço para ser uma questão. Mas fico feliz se eventualmente mais pessoas que são como eu e que vivem a vida como eu se identifiquem, e que isto possa ser uma ajuda para elas.

Quero sempre que as pessoas se sintam livres para serem exatamente aquilo que são. Os meus concertos servem para as pessoas serem exatamente aquilo que são desde que a liberdade delas não impeça a liberdade do outro, que não magoe ninguém e que não seja uma coisa fora da lei. Esse o meu objetivo nos meus discos, nos concertos e em tudo.

Mas essa liberdade para ser quem quiser existe mesmo ou ainda há um caminho a percorrer?

No meu seio familiar, nas minhas amizades, sou sempre quem eu quero em todo lado. Mas, claro, ainda há muito caminho a percorrer. São anos e anos de opressão de certas minorias.

Vivemos tempos tensos, com algumas questões por resolver. O mais importante é vivermos em concordância com as leis que existem.

Este disco também vem nessa ótica de querer preservar aquilo que existe e de cuidar. O mais importante é cuidarmos mais daquilo que existe cá e não estarmos sempre a tentar sair fora. Vivemos tempos tremidos, porque as coisas evoluem, evoluem, e às vezes já perdemos de mão delas.

Apesar de já morar em Lisboa há quase 14 anos, sou aquela miúda que corria no terreno atrás de minha casa a ouvir as cigarras a cantar. São sensações que aqui na cidade não consigo ter tanto. E fui sempre essa miúda muito livre.

Lembro-me de ser menina e jogar à bola e não ser uma questão, mas tinha o meu nenuco e adorava… Sempre fui muito livre e pretendo que na minha comunidade isso exista. Temos mais coisas na vida para pensar do que essas, e há problemas mais difíceis para resolver. Devemos preocupar-nos mais connosco, com aquilo que fazemos e menos com o que os outros fazem.

É preciso dares o exemplo para seres o exemplo. Quero que os meus filhos - se um dia os tiver - vivam num mundo livre. Faz-me todo o sentido poder dar o meu contributo e não me esconder atrás de um ecrã

Quando fiz a pergunta foi mais no sentido de ter partilhado numa entrevista anterior que já teve medo de dar a mão à sua namorada em público...

Sim, mas não tem nada que ver com o disco. Como é óbvio, enquanto mulher e quando tens uma relação com uma mulher, é algo que não é tão comum de ver naturalmente, porque as pessoas Queer – nem todas - têm esse receio de ser.

No meu núcleo não tenho, mas já notei, claramente, quando estás num sítio mais longe dos teus núcleos – notas que há certas pessoas que ainda olham com um olhar mais julgador. Consigo compreender o porquê, mas chega a um ponto em que quero que as pessoas percebam que é tão natural quanto outra coisa qualquer.

É importante criar essa normalidade!?

Sim, que toda a gente já tenta desde o início, mas é preciso dares o exemplo para seres o exemplo. Quero que os meus filhos - se um dia tiver - vivam num mundo livre. Faz-me todo o sentido poder dar o meu contributo e não me esconder atrás de um ecrã, como tanta gente se esconde. Preciso de ser livre nesse sentido, e ser livre é ires para a rua e mostrares aquilo que és.

Claro que houve momentos no início em que senti esse receio, mas cada vez menos, porque a verdade é que uma demonstração de afeto, seja numa amizade, numa relação de mãe-filha, pai-filha, pai-filho, o que for, é tão válida quanto uma demonstração de afeto de um casal heterossexual, como de um casal homossexual, como de um casal bissexual.

Devemos urgentemente priorizar essas questões no sentido de as deixar acontecer. Há tantas outras coisas que são efetivamente problemáticas...

Não tem qualquer importância e quero viver nesse mundo livre. Não quero ter esse medo, não o tenho já, mas já o tive. É aí que não quero voltar e é importante batermos o pé.

Acho que sou só uma versão evoluída daquela Iolanda. É também um disco de muita afirmação minha enquanto mulher, enquanto pessoa adulta

No meio do lado pop das músicas deste álbum, também há muito de festa da aldeia e música tradicional portuguesa com a viola braguesa, por exemplo. Quais foram as suas inspirações? Sente que está a construir a sua identidade musical nesta ponte entre aquilo que é contemporâneo e o que vem das suas raízes?

Sim. Para as raízes sónicas do disco, vamos buscar muita referência à música tradicional portuguesa. Já tinha algumas ideias e depois fomos para o estúdio. Comecei a interessar-me pela sonoridade e depois a trazer um bocadinho aquilo que já tinha de casa, porque fiz parte de um grupo de cavaquinhos quando era miúda. Enquanto toquei nesse grupo aprendemos muita música portuguesa. De repente, dou por mim a criar este disco e a aproximar-me - sem saber - desses estilos mais tradicionais, mas não consigo largar o pop.

A minha carreira vem de um pop meio bucólico, um pop campestre, talvez. Quando estou a escrever o disco reparo que estamos a caminhar para esse lado mais tradicional, mesmo com os adufes, os tambores e todos esses elementos, mas sempre tendo alguma perninha no contemporâneo, na música atual e que vem das minhas referências - tanto da Rosalía ou mesmo do flamenco. Sou muito fã de flamenco e de fado. São estilos que amo.

As escalas musicais do flamenco e do fado têm algumas parecenças, não todas. Há aqui esta sonoridade ibérica que sempre adorei. Talvez pelas minhas referências a coisa se mistura e acaba por ser uma mescla, que sou eu.

O  que é que a Iolanda que participou na Eurovisão tinha que a Iolanda de "Quebranto" já não tem (e vice-versa)?

Acho que sou só uma versão evoluída daquela Iolanda. Sou uma Iolanda, claramente, 2.0. É também um disco de muita afirmação minha enquanto mulher, enquanto pessoa adulta.

É um disco muito importante porque marca uma diferença entre a Iolanda da Eurovisão, que estava a viver a música pela primeira vez a full time, a 100%, numa dimensão muito de sonho, e hoje em dia é uma dimensão mais real. 

Hoje em dia vivo disto e estou muito feliz e grata por ter público, por todo o apoio que tenho recebido. Sou uma sortuda. Fico muito feliz por as pessoas gostarem das canções e estou ansiosa para que ouçam este disco, porque marca a diferença entre a Iolanda sonhadora e a Iolanda que vive o sonho.

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